Opiniões



Bancos, lobby e financiamento imobiliário - Por Sergio Mauad - Novembro/2015



Sergio Mauad *

Nenhum programa de financiamento imobiliário para as classes média e a popular no Brasil foi bem sucedido. Em todos, sem exceção, prevaleceram interesses políticos e econômicos pouco nobres que tiraram sua longevidade ou os desfiguraram em algum momento. O plano Pai da era Collor foi um deles. Hoje o Minha Casa Minha Vida já esta engasgando e sem o acompanhamento necessário por assistentes sociais aos adquirentes. No SFH- Sistema Financeiro da Habitação voltado à classe média, vivemos hoje uma alta de juros escorchante sobre o comprador e financiamento quase inexistente para o produtor.  O SFH com juros limitados a 10% aa pela lei 4380/64, veio sendo  descaracterizado por resoluções, como a 2091 do BACEN, entre outros regulamentos maliciosos,  levando compradores e empresas a dificuldades. Com estas distorções, se uns perdem de um lado, outros ganham do outro, em especial os bancos.

Lembremos que SFH, que regulamenta o FGTS e a Caderneta de Poupança, lida com dinheiro que não é nem de governo, nem dos bancos, nem mesmo da Caixa Econômica Federal que é gestora do FGTS. E o dinheiro da Caderneta de Poupança é de propriedade dos poupadores, apenas administrado pelos bancos. Estas duas fontes de financiamento nasceram sagradas, carimbadas para financiar habitação. A tal ponto chegou a ousadia que parte do FGTS foi liberada para trabalhadores fazerem aplicações de risco em ações como as da Petrobras. Um desvio para a estatal, do dinheiro carimbado para habitação e infraestrutura. E sabemos que as estatais são usadas no mundo inteiro para margem de manobras econômicas e financeiras pelos governos, quase sempre com interesses misteriosos.

Habitação, como educação e saúde, são a base do desenvolvimento pessoal e econômico do país. Dão a estabilidade social que cria o ambiente para a boa qualidade de vida.

O lobby bancário sempre foi muito atuante e quanto menor o número de bancos, mais eficaz ele fica. O Bradesco acaba de comprar o HSBC. E assim o Brasil passa a ter apenas quatro grandes bancos comerciais privados, com lobby concentrado numa Febraban e um braço enfiado no governo Dilma que é o ministro Joaquim Levy, um executivo do Bradesco.

É público, pelos meios de comunicação, o ganho estratosférico dos bancos com juros altos. Juros esses provocados pela política econômica implantada por Levy na linha da recessão, inibindo a produção e o emprego. Com isso cai a arrecadação tributária e ele mesmo propõe aumentar impostos para esta compensação.

A imprensa tem divulgado a perversidade da recessão que beneficia o tráfico de crédito operado pelos bancos. Uma estratégia em que ficando mais restritivos na concessão chegam a cobrar 14% ao mês no crédito pessoal e, por outro lado, cidadãos perdendo suas casas próprias, devolvendo aos bancos carros comprados na ilusão do milagre brasileiro. Tais devoluções não quitam as dívidas e aqueles cidadãos passam a ter sua ficha suja, executados pelos financiadores que querem receber mais. Estão marcados para morrer economicamente, num tipo de parceria em que o SERASA cria o círculo vicioso da desagregação do indivíduo na sociedade.

Que se ouça a linha do respeitado economista Paulo Rabello de Castro, com sua conceituada sabedoria no campo da economia, uma linha em que parte da oposição política ao governo e mesmo parte dos seus aliados também são adeptos- assista no vídeo acima seu depoimento no Roda Viva.  É exatamente ao contrário, com incremento à produção e emprego. Produzindo exercita-se na melhor tecnologia e competitividade internacional. Empregando estimula-se a melhor qualificação profissional, proporciona-se o bem estar familiar. A arrecadação tributária é decorrência do processo.

Enquanto o lobby dos bancos os enriquecem, a sociedade sofre e paga. Uma desorganização jamais vista neste país, que somada à corrupção generalizada incrustada no governo, fragiliza a educação, cultura, saúde, entre outros. Em decorrência temos uma população com reflexos psicossomáticos que aumentou seu consumo de remédios tarja preta em 47%, com 37% de impostos irresponsavelmente embutidos em seus preços.

Atrás do lema que diz que uma Nação tem que ter bancos fortes para fomentar a produção e o consumo consciente, temos distorções predadoras que exigem ainda mais atenção do Ministério Público e do Poder Judiciário.

*Sergio Mauad , conselheiro e ex presidente do Secovi-SP, preside a SMDI-Desenvolvimento Imobiliário

Obs. O autor está aberto e agradece por críticas construtivas

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