Opiniões



Trio de escritórios finaliza a estação Roterdã Central na cidade holandesa, marcando a paisagem com um edifício-ícone - Março/2016



Por entre os prédios, surgem todos os dias imensas embarcações intercontinentais que teimam em trafegar mansamente pelas águas do rio Maas. A cidade holandesa de Roterdã abriga um dos maiores portos do mundo e dele extrai sua inconfundível identidade. Mas não só de navios e guindastes se faz a particularidade de seu skyline: como transatlânticos, edifícios de arquitetura icônica parecem despontar do dia para a noite na cidade, causando - se não a mesma surpresa - certamente a mesma admiração nos moradores.

A potência naval de Roterdã está consolidada há séculos, mas é sua vocação como hub de transportes por terra que ganha destaque nas últimas décadas. Prova disso é a inauguração da nova e imponente estação central, onde trens, bondes, metrôs e ônibus funcionam lado a lado, atendendo a 110 mil passageiros diários. O projeto substitui o terminal anterior que, se já não dava conta do volume de usuários atual, certamente não poderia responder a demandas futuras: estimativas apontam que o total de viajantes deve quase triplicar em pouco mais de dez anos.

A estação assume uma importância estratégica nos serviços de trens de alta velocidade europeus por estar em uma posição central no continente, a apenas 20 minutos do principal aeroporto holandês, Schiphol, e a meras duas horas e meia de Paris. Sua localização a alça à categoria de estação internacional, em uma cidade igualmente cosmopolita.

A arquitetura do novo edifício abraça ambições presentes e futuras para a comunidade, mas nasce de uma profunda compreensão da história da cidade. E que história. O centro de Roterdã foi sumariamente reduzido a cinzas em uma noite de maio de 1940, durante a invasão alemã que forçou a rendição da Holanda na Segunda Guerra Mundial. Os poucos edifícios que continuaram de pé foram mantidos, mas, para o restante do centro, o governo aplicou um princípio de tábula rasa. Assim, a cidade virou palco de um intenso experimentalismo em projeto, onde nomes da arquitetura holandesa e mundial puderam dar vazão a seus impulsos criativos de forma bastante livre, verticalizando o centro.

O processo continua e esses edifícios vêm, pouco a pouco, criando uma imagem nova para a cidade, fundamental diante da ferida física e psicológica que o bombardeio deixou. De maneira geral, os cidadãos se sentem orgulhosos das loucuras arquitetônicas que vão colorindo o centro, fazendo de Roterdã uma cidade sem par. A nova estação colabora nessa escalada de autoestima, reforçando o que há de mais central na identidade: o terminal se materializa evocando a robustez do porto - em sua imponência, na forma das colunas, no revestimento metálico - em combinação com toques de suavidade, entregues pelo forro de madeira e pela gama de cores resultante.

A relação entre a arquitetura da estação e a história da cidade não para por aí. O terminal está situado bem no limite da área destruída em 1940, de maneira que uma de suas fachadas está voltada para um bairro tipicamente holandês, com casinhas de tijolos, e, outra, para o centro verticalizado. O novo projeto aborda de maneira radicalmente diferente esse conjunto de contextos urbanos: enquanto a entrada pelo lado norte tem um desenho modesto, apropriado para a vizinhança de bairro, aquela voltada para o Centro da cidade se converte em um grande portal para a Roterdã internacional e metropolitana.

A proposta para estação foi definida por concurso, onde quem levou a melhor foi a CS Team, equipe constituída por três notórios escritórios holandeses: Benthem Crowel Architects (que detém, em seu portfólio, diversas estações de trem na Holanda), MVSA Architecten (conhecidos por seu alto grau de inovação) e West 8 (consagrado escritório de paisagismo e urbanismo).

Duas foram as estratégias que nortearam a proposta vencedora: reparar o entorno urbano, antes inseguro e pouco atraente, com um abrangente masterplan que inclui novos espaços públicos e edifícios, além de muitas lojas, e dignificar o acesso aos trens com a criação de uma grande cobertura sobre as plataformas - item não requerido pelos organizadores do concurso.

Uma das primeiras medidas implementadas foi a liberação da área pública diante da fachada principal da estação com a reorganização das linhas de ônibus e de bonde (que passaram a ocupar apenas os limites do espaço) e da disposição de um estacionamento sob a nova praça, com 5,2 mil vagas para bicicletas e 750 vagas para automóveis. A intenção era criar uma esplanada que se desenrolasse da estação como um tapete vermelho, razão pela qual foi utilizado um pavimento em granito nessa tonalidade. A iniciativa de melhorar as condições de acesso para pedestres e ciclistas foi complementada pela implantação de uma série de novos bulevares que ajudam a conectar o terminal ao centro da cidade.

O grande hall de entrada é uma continuação do espaço público, salpicado por lojas. A monumental cobertura aponta para o coração da cidade e reage, em sua geometria, aos edifícios lindeiros, permitindo que eles também participem da configuração da nova praça. Sua estrutura é em treliças metálicas revestidas por chapas de aço inoxidável de 0,5 mm de espessura na face externa e por ripas de madeira na face interna. Uma tela de led de 40 m x 4,5 m foi instalada no grande hall e apresenta imagens do porto de Roterdã.

A cobertura sobre as plataformas não era do escopo do concurso, mas a equipe projetista convenceu os clientes (prefeitura e empresa ferroviária) de sua necessidade, para alcançar a grandeza que uma estação internacional precisa ter. Os arquitetos fizeram alguns malabarismos e conseguiram manter o projeto dentro do orçamento disponível.

Por isso, a técnica foi simples e barata: estrutura metálica com cobertura plana de vidro, como uma estufa agrícola. Para evitar o excesso de calor no verão, foram instalados adesivos de dois tamanhos que, somados a células fotovoltaicas dispostas na porção mais ensolarada do telhado, formam um interessante padrão translúcido que lança sombras cambiantes sobre os trens.

O túnel sob as plataformas foi alargado de 8 m para 48 m e ocupado por lojas dos dois lados - que deixam generosos 24 m livres para a circulação. Sua altura também foi aumentada em 1,5 m, já que o piso foi rebaixado e a cobertura, levantada. As escadas permitem que abundante luz natural banhe toda a extensão do túnel, alterando radicalmente seu caráter.

Assim, a nova estação central de Roterdã obedece à tipologia clássica de estações ferroviárias, consolidada ainda no princípio do século 20: grande hall de entrada com um conjunto de plataformas conectadas por túnel. Tipologia que vem caindo em desuso à medida que as estações têm sido associadas a outros edifícios, ficando escondidas. Mas os arquitetos acreditam que foi acertada a decisão de construir um edifício claramente devotado à função ferroviária: "quando as pessoas puderem ver o efeito dessa estação em Roterdã, irão repensar o princípio de incorporar estações de trem a edifícios multifuncionais", apostam.

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Por Mariana Siqueira Fotos Jannes Linders

Fonte Edição 243 - Junho/2014 PINI http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/243/trio-de-escritorios-finaliza-a-estacao-roterda-central-na-cidade-313050-1.aspx