Opiniões



O que os góticos contemplariam nos Cemitérios Jardim?- Ricardo Scarelli -Junho/2015



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Nas fotos inferiores:à esquerda “O último adeus”, de Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo- na foto da direita o Portal do Cemitério de Paraibuna

A concepção dos cemitérios-jardim é relativamente nova e propõe uma visão de igualdade entre os Homens ao evitar a ostentação presente em muitos dos cemitérios tradicionais. Por outro lado, renega toda a beleza e a simbologia da arte tumular que sempre nos proporcionaram um ambiente de reflexões sobre a morte. Ou divagações coloquiais sobre a vida...

O historiador norte-americano Lewis Mumford afirma em “A Cidade na História” que a cidade dos mortos antecedeu a cidade dos vivos, uma vez que no período paleolítico os mortos já tinham as cavernas como suas moradas permanentes. A frase é precisa e aparentemente óbvia, mas a questão que ela levanta é que os Homens nômades já tinham uma atenção especial com seus mortos assim como os seus descendentes do neolítico que construíam dólmens, os monumentos em pedras concebidos para a demarcação de sepulcros coletivos em substituição às cavernas. É provável que esse comportamento dos primeiros seres humanos já apontasse alguma crença na transcendência, precedendo e ao mesmo tempo sendo base à posterior religiosidade da humanidade.

De fato, passa-se o tempo e com os egípcios da Antiguidade já há todo um ritual em uso nos momentos fúnebres, sendo redimensionados no caso dos faraós e suas relações entre poder e morte. Mas é na civilização Greco-Romana que surgem muitos dos costumes ainda em uso atualmente, como as inscrições em lápides e o adorno dos túmulos com flores ou alimentos, iniciando-se assim o culto à memória dos mortos. Entretanto, o costume grego-romano de instalar as sepulturas às margens das estradas foi sendo banido conforme o cristianismo avançou e a Igreja passou a exercer maior influência na sociedade. A partir de então é criado e propagado o hábito de se enterrar os mortos nos denominados solos sagrados, como tumbas de santos e interiores de igrejas. O motivo seria a singela perspectiva de que quando do Juízo Final a ressurreição desses mortos se daria de forma mais eficaz...

Esse hábito permaneceu até a Idade Média quando os primeiros cemitérios similares aos atuais surgiram no entorno das igrejas e que por elas ainda seriam administrados. Já no Brasil, especificamente em São Paulo, o enterro no interior das igrejas vigorou até a metade do século XIX, sendo um hábito já questionado pelos higienistas há décadas. Até então o único cemitério da cidade era o dos Aflitos, onde hoje se encontra o bairro oriental da Liberdade e que desde 1779 destinava-se ao sepultamento dos pobres, dos indigentes, dos escravos e dos condenados à forca. Nele eram comuns as covas rasas, sendo que corpos ali enterrados tempos depois surgiam expostos ao ar livre e exalando odores. As pessoas aceitavam tudo isso com certa naturalidade.

O Cemitério dos Aflitos funcionou até a abertura do Cemitério Municipal da Consolação, em 1858. Este originalmente realizava o sepultamento de pessoas de todas as classes sociais, inclusive de escravos. A partir do século XX a prefeitura começou a vender jazigos perpétuos. As famílias abastadas da cidade iniciam então o seu loteamento e a sua posterior transformação em um cemitério-museu repleto de obras de grandes escultores, algo já comum na Europa.

Pois é esse ambiente arborizado e cheio de simbologia e de tantos outros cemitérios tradicionais, inclusive dos mais simples, que nos traz momentos de introspecção, e não de morbidez, enquanto nos cemitérios-jardim essa capacidade de reflexão me parece bastante dispersa. Já é possível, contudo, notar uma variável no conceito original desses últimos, se permitindo algumas esculturas em suas áreas comuns e pequenas lápides padronizadas substituindo as placas de bronze fincadas no solo.

As lápides tradicionais sempre foram os cartões de visitas dos mortos: basta os seus nomes, as datas de nascimento/morte e a indispensável fotografia para nos permitir um exercício mental de viagem no tempo: quantos anos essa pessoa viveu? Que mundo ela presenciou? O que fez ou não fez parte de sua vida?

Salvo casos de personalidades públicas cada jazigo guarda histórias únicas, fascinantes retratos de uma época ou destinos esquecidos pelo tempo. Entretanto, muitas personalidades anônimas deixam esta condição justamente após a morte, quando são incorporadas à literatura tumular das cidades em que findaram suas vidas. Para além destas, como saber a história enterrada em cada sepulcro? Ora,não saberemos.

No cemitério da Consolação há o que foi um dia uma bela jovem falecida no início de 1962, aos vinte anos de idade. Ao olhar a sua imagem muitas indagações me vem à mente. Mas junto ao lamento do porquê de sua brevidade outras questões coloquiais me ocorrem: é de se lamentar que por tão pouco ela não tenha conhecido os Beatles... Mas será que ela teria sido mais uma de suas fãs ou era uma apaixonada exclusivamente por óperas? Ela tampouco teve a oportunidade de vivenciar a revolução sexual que estaria por vir e da qual seria contemporânea na flor de seus 25 anos. O que importa isso agora? Absolutamente nada. Essas divagações duram alguns instantes, são efêmeras como a vida e prontamente substituídas quando um novo jazigo é avistado. E vendo o retrato de um senhor falecido nos anos 20 com seu imenso bigode, tal qual um personagem dos filmes de Chaplin, imagino-o interagindo com a cidade, exercendo o seu ofício de alfaiate e esbaldando-se com uma macarronada ao molho...

Mas há nesses locais mais do que o espirito de cada época ali enterrado.


Por fim, pois sempre há um fim, o epitáfio. De todos os que já li nenhum se compara a espécie de epitáfio coletivo do cemitério de Paraíbuna - SP, e que serviu de título e inspiração para a obra prima do cineasta Marcelo Masagão: “Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos”, é uma frase escrita logo acima do portão de entrada do singelo cemitério. É sem dúvida um primor de síntese de algum anônimo sábio. E um misto de profunda resignação e, porque não dizer, certa sacanagem imputada aos mortos.

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Fonte OBVIOUS  http://lounge.obviousmag.org/tempo_rei/2015/02/o-que-os-goticos-contemplariam-nos-cemiterios-jardim.html